Só 5% dos alunos aprendem matemática adequadamente — e 80% chegam ao 9º ano com dificuldades
Especialistas defendem ensino integral nos anos finais como estratégia para reduzir desigualdades e evitar evasão escolar
Em meio à reforma educacional em curso no Brasil, especialistas defendem o ensino integral para os anos finais do ensino fundamental como estratégia para enfrentar desigualdades e garantir a permanência dos adolescentes na escola. O tema foi o centro do painel Compromisso com as adolescências: caminhos para aprender, pertencer e permanecer nos Anos Finais, realizado no Seminário Internacional Anos Finais Integrais, promovido pela Motriz em parceria com Fundação Lemann, Instituto Sonho Grande, Instituto Natura e Fundação Itaú.
O debate recordou alguns números que evidenciam o desafio do país, como: apenas 5% dos estudantes que concluem o ensino médio aprendem matemática suficiente para uma vida funcional, mostrando que os anos finais ainda são um ponto crítico na trajetória educacional. Para os especialistas, a implementação do ensino integral, com projetos e políticas específicas pensadas para o desenvolvimento do adolescente, é essencial para oferecer oportunidades equitativas e ampliar o repertório dos estudantes em situação de vulnerabilidade.
O Diretor de Parcerias Institucionais da Motriz, Fred Amancio, também trouxe números preocupantes sobre os anos finais: 80% dos alunos chegam ao 9º ano com dificuldades em matemática. Para ele, urge a necessidade de um olhar mais direcionado e estruturado a esta fase da educação. “Não podemos mais adiar o nosso trabalho com os anos finais. Oito entre 10 estudantes chegam ao 9° ano sem as competências necessárias em matemática, e os resultados pioram ainda mais chegando no Ensino Médio”.
O evento destacou que os desafios educacionais nos anos finais estão diretamente ligados às desigualdades socioeconômicas que marcam a trajetória dos estudantes. Jovens em situação de vulnerabilidade, especialmente pretos, pardos, indígenas e de famílias de baixa renda, enfrentam percursos mais irregulares e uma relação mais frágil com a escola, muitas vezes impactada por uma visão de futuro limitada. Nesse contexto, os especialistas reforçam que a educação integral vai além da ampliação da jornada escolar, ao buscar garantir acesso a repertório, vivências e oportunidades que ampliem perspectivas e fortaleçam o vínculo dos adolescentes com a aprendizagem.
O seminário da Motriz apresentou experiências, políticas públicas e práticas consolidadas aplicadas aos alunos desse período que vai do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental. “A Motriz acredita que essa etapa é um ponto de inflexão. Se fortalecermos a aprendizagem, o pertencimento e as perspectivas de futuro nesse momento da vida dos alunos, vamos abrir caminhos muito mais promissores para suas trajetórias”, avaliou Joice Toyota, Diretora Executiva da Motriz, na abertura do evento.
Com a palavra o MEC
Representando o Ministério da Educação, Katia Schweickardt, propôs uma reflexão. “A gente já pensou quem são esses estudantes, de 12 a 15 anos? A maioria deles são pretos e pardos. São filhos e filhas de trabalhadoras e trabalhadores, e às vezes de pessoas desempregadas. Vivem em territórios marcados por profundas desigualdades. Alguns em casas com algum tipo de violência. Paramos para pensar que são esses os adolescentes que queremos que aumentem o IDEB? Conseguimos separar esse contexto deles?”, questionou a Secretária Nacional de Educação Básica do MEC.
Ao longo do dia, especialistas, gestores públicos e organizações parceiras compartilham evidências, experiências e reflexões sobre políticas e práticas que podem ampliar a aprendizagem, enfrentar desigualdades e tornar a escola mais significativa para os adolescentes.
Visão internacional
David Yeager, da Universidade do Texas, e Rachel Lotan, da Universidade de Stanford, contribuíram para o debate com uma visão internacional do ensino. Para David, se mantivermos padrões elevados de cobrança, sem oferecer suporte adequado aos estudantes, eles serão afastados da trajetória de aprendizado. Já Rachel entende que as salas de aula devem ser constituídas a partir de três premissas: devem ser igualitárias, excelentes e democráticas.
O encontro ainda promoveu mesas abordando temas como caminhos para o ensino da matemática sem medo; regime de colaboração e governança para os Anos Finais Integrais, e tecnologia e inovação nos Anos Finais do Ensino Fundamental.
Também foram apresentados avanços da educação em secretarias municipais do Rio de Janeiro e Recife e dados do Ceará. No Rio, a rede municipal de ensino conta com mais de 360 unidades escolares com anos finais, sendo 57% em tempo integral e 8% estão em transição para o integral. No Recife são 45 escolas, sendo 24 já em tempo integral. Em 2021 eram 12 unidades em tempo integral. E no Ceará, o percentual de escolas em tempo integral saiu de 40% para 60%, de acordo com o último Censo.
O Seminário Internacional de Anos Finais Integrais – Redes que Transformam é promovido pela ONG Motriz em parceria com a Fundação Lemann, Instituto Sonho Grande, Instituto Natura e Fundação Itaú.
Sobre a Motriz
A Motriz é uma organização suprapartidária, sem fins lucrativos, que tem como missão fortalecer governos para que entreguem serviços públicos de qualidade e com equidade a todas as pessoas no Brasil, reduzindo as desigualdades sociais e fortalecendo a democracia.
